Sunday

Objectivos de Aprendizagem


A Criação de Adão (detalhe)
M. Ângelo, Capela Sistina


Localizar os principais focos de difusão cultural nos séculos XV e XVI.

Explicar as condições que favoreceram o surgimento do Renascimento na Itália.

Descrever as características do Humanismo renascentista.

Caracterizar a nova mentalidade do homem renascentista em oposição à mentalidade medieval

Compreender a importância da imprensa na divulgação dos novos valores e atitudes no campo do pensamento e da literatura.

Identificar as principais figuras do humanismo e da literatura renascentista europeia e algumas
das respectivas obras.

Relacionar o desenvolvimento da curiosidade face à Natureza com o espírito crítico renascentista e com as grandes viagens marítimas.

Mencionar os progressos do conhecimento nos séculos XV e XVI.

Caracterizar a arte renascentista( arquitectura, escultura e pintura) identificando autores e obras.

Definir Reforma e Contra-reforma.

Explicar as causas e a origem da contestação à Igreja Católica

Apontar diferenças entre o pensamento católico e as propostas dos contestatários (Lutero e Calvino) .

Explicar em que consistiu a Contra-Reforma

Apontar as principais medidas tomadas pela Igreja Católica para fazer face ao avanço do protestantismo.

Avaliar o impacto ou os efeitos da Inquisição e do Index no desenvolvimento da Ciência peninsular


Materiais de Apoio

Saturday

O Saber Herdado

A Torre de Babel
Peter Brueghel, O velho

«Até que ponto poderei progredir?» - perguntas-me. Até ao ponto onde chegarem os teus esforços. De que estás à espera? O saber não se obtém por obra do acaso. O dinheiro pode cair-te em sorte, as honras serem-te oferecidas, os favores e os altos cargos poderão talvez acumular-se sobre ti: a virtude, essa, não virá ter contigo! Não é sem custo, sem grandes esforços, que chegamos a conhecê-la; mas vale bem a pena o esforço, porquanto de uma só vez se obtêm todos os bens possíveis. De facto, o único bem é aquele que é conforme à moral; nos valores aceites pela opinião comum não encontrarás a mínima parcela de verdade ou de certeza..
Séneca - Cartas a Lucílio

Sunday

Denúncias na Inquisição de Lisboa


Os cárceres estão cheios. As denúncias não param. Irmãos denunciam os irmãos, mulheres denun­ciam os maridos, os filhos denunciam os pais. Uma sombra devota de terror trespassa a alma do País.
Eis um pequeno sumário.

20 de Setembro de 1533 - António Correia denunciou Duarte Fernandes por não comer toucinho.

12 de Janeiro de 1554 - Diogo Antunes, estudante dos Jesuítas, disse que foi a casa de um calceteiro e que este tinha na parede uma estampa com um santinho com teias de aranha.

18 de Junho de 1554 - Compareceu o ouri­ves Pedro Rodrigues por ter dito que certas mulheres iam à romaria da Senhora da Luz menos por devoção do que por poucas vergo­nhas.

31 de Janeiro de 1555 - Compareceu Baltasar Gomes, ourives, que denunciou um flamengo que não tirou o barrete quando passava diante da cruz.

9 de Março de 1555 - O padre Luís Neto, capelão da Sé, acusou um inglês chamado Ricardo, que disse que o Papa canonizava os santos por dinheiro.

9 de Setembro de 1555 - João de Paris, relojoeiro francês, denunciou o inglês Marcos, mestre da Nau, que disse que não era preciso rezar aos santos, bastava fazê-lo a Deus.

21 de Janeiro de 1556 - André Pires, padre de Sarzedas, denunciou António Rodrigues por ter dito que Nossa Senhora era judia.16 de Fevereiro de

1556 - O jesuíta João Dício acusou o flamengo Reiner, lapidador de pedras, por ter dito que era mais virtuosa a vida dos casados que a dos religiosos.

26 de Março de 1556 - Ascenso Fernandes denunciou Pedro de Loreto, carpinteiro fran­cês, por comer carne à sexta-feira.

22 de Abril de 1556 - Francisco Gonçalves denunciou Rodrigues Álvares, escrivão, por vestir aos sábados pelote, calça preta, boas botas e roupão esverdeado, com pesponto de seda e alamares, ao passo que nos dias san­tos traz só gabão de mangas curtas.

10 de Julho de 1556 - Fernando Afonso denunciou dois hereges de Ponte de Lima, que disseram que a hóstia era apenas pão.

30 de Abril de 1557 - Manuel Borges denunciou António Gonçalves por ter dito que dormir com uma mulher não era mal nenhum.

4 de Agosto de 1557 - O licenciado Garcia Mendes de Abreu acusou um cristão-novo de dizer, sobre a virgindade de Nossa Senhora, o seguinte: "Como é que se pode tirar a gema ao ovo sem o quebrar?".


José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra
Diário da História de Portugal

O Tempo das Reformas Religiosas


Index Librorum Prohibitorum



"A censura inquisitorial não só aniquilou a tradição humanística do nosso Renascimento, e cortou a comunicação de Portugal com a cultura europeia, mas ainda desanimou e esterilizou (...) a criação literária e científica" (António José Saraiva)



O poeta António Ferreira (1528-1569) lamentava-se a certa altura, dando o tom da época:

«A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.

Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.

Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.»


António Ferreira –Carta XII - a Diogo Bernardes







Avalia as consequências para o desenvolvimento intelectual e científico do  reino ao longo dos sécs XVI, XVII e XVIII da acção da Contra-Reforma.

Vítimas da Inquisição

As vítimas da Inquisição vestiam túnicas que permitiam distingui-las. O hereje, cuja túnica mosta uma fogueira está condenado à morte na fogueira. O que segura uma vara e um rosário será poupado. Em baixo podes ver alguns suplícios e penas por que passavam os que caíam sob a sua alçada.



Reforma Protestante

Damião de Góis


Damião de Góis , um dos espíritos mais universais que esta terra já viu nascer morre em 30 de Janeiro de 1574. Vítima do clima inquisitorial que o seu amigo de infância D. João III aqui havia instalado foi encontrado morto na lareira de sua casa em Alenquer.
Quando, em 1941, se fez a trasladação dos seus restos mortais para a Igreja de S. Pedro, em Alenquer, Mário de Sampaio Ribeiro, estudioso musical (Damião de Góis foi, também, compositor), viu-lhe o crânio. Notava-se uma violenta pancada arredondada, improvável que fosse provocada por qualquer aresta, ao cair sobre a lareira.
Alguém o assassinara.

Saturday

Contextualizar

Os Novos Caminhos do Conhecimento


A Escola de Atenas (1511)
Rafael Sanzio

O mundo volta a si como se despertasse de um grande sono. Todavia, há ainda certas pessoas que resistem com furor, agarrando-se, de pés e mãos, à sua antiga ignorância. Temem que, se as letras antigas renasce­rem e o mundo se tornar culto, venha a demonstrar-se que não sabiam nada. Ignoram até que ponto os antigos foram sábios, que grandes qualidades possuiam Sócrates, Virgilio, Horácio e Plutarco.
Ignoram que a história da Antiguidade é rica em exemplos de verdadeira sabedoria.

Erasmo de Roterdão, Cartas (1527)
O Homem, um Ser Livre
Disse Deus ao homem: coloquei-te no centro do mundo, para que possas olhar à tua volta, e ver o que o mundo contém. Não te fiz celestial nem terreno, mortal nem imortal: poderás tu próprio escolher o teu caminho. Pela tua vontade podes tornar-te em bruto irracional ou podes alcançar uma elevada perfeição quase divina.


(Pico della Mirandola, A Dignidade do Homem, 1486 )
A Formação da Mentalidade Moderna


No centro da transformação intelectual renascentista encontra-se a passagem de uma mentalidade teocêntrica, isto é, que colocava Deus no centro da reflexão humana, para uma mentalidade antropocêntrica que tinha o homem como centro da sua reflexão e preocupação. Esta proposta correspondia a um reconhecimento e a uma crença optimista nas capacidades e no valor do ser humano, contrapondo-se à visão medieval do mundo.
A Arte de Imprimir

Antes de Gutenberg criar a imprensa com caracteres móveis (1455), já se utiliza­vam no Ocidente algumas técnicas de impressão. Gravava-se o texto e os de­senhos em pranchas de madeira que, depois de receberem tinta, eram com­primidas sobre o papel. Este sistema, que era chamado de xilografia (xylon, em grego, significa madeira) no entanto, já era utilizado na China desde há muito.
O processo criado por Gutenberg reve­lou-se menos trabalhoso e mais eco­nómico e eficiente que a xilografia. As letras móveis, feitas de chumbo, po­diam sempre ser usadas em novos textos.
O 1º livro a ser impresso foi a Biblia e demorou cerca de cinco anos (1455-1460) . Em bre­ve a arte de imprimir se espalhou pela Europa. Em Portugal começaram a ser impressos livros ainda na segunda me­tade do século XV.
A invenção de Gutenberg é uma ds grandes conquistas da Humanidade.Para teres uma idéia do êxito e da importância da imprensa lembra-te que, em meados do século XV, o conjunto de todos os livros (ma­nuscritos) existentes na Europa não os dez mil e que, passados apenas cinquenta anos, havia cerca de 10 milhões de livros impressos.
O grande escritor francês Victor Hugo, disse dela no séc XIX:
"A invenção da imprensa é o maior acontecimento da história. É a revolução mãe... é o pensamento humano que larga uma forma e veste outra... é a completa e definitiva mudança de pele dessa serpente diabólica, que, desde Adão, representa a inteligência."

TPC à distância

A Itália, Berço do Renascimento
Com base no esquema escreve um pequeno texto onde explicites a origem italiana do movimento cultural que foi o Renascimento

Síntese Esquemática


Renascimento- Tópicos de Estudo


O Homem Novo


Tópicos de Estudo


UM HUMANISTA CRITICA A SOCIEDADE DO SEU TEMPO

Archimboldo


Se alguém julgar que falo com mais atrevimento do que verdade, venha inspeccionar comigo as vidas humanas [...]. Este mete no ventre tudo quanto ganha e, poucos dias depois, passa fome. Aquele não vê a felicidade senão no sono e no ócio. […] Os negociantes mentem, roubam, defraudam, enganam e consideram-se pessoas muito im­portantes porque andam com os dedos cheios de anéis de ouro. [...] Se alguém pudesse observar os mortais a partir da Lua, julgaria ver milhares de moscas e de mos­quitos envolvidos em rixas, guerras, maquinações, rapi­nas, enganos [...].
Os reis e os príncipes não escutam senão os que lhes di­zem coisas agradáveis […] Julgam executar inteiramen­te as funções régias se vão com frequência à caça […] e se inventam diariamente novas maneiras de diminuir a riqueza dos cidadãos e de aumentar a sua, por meio do fisco [...].
E que direi dos cortesãos? Nada há mais rasteiro, mais servil, mais hipócrita, mais abjecto que esses homens que se consideram os primeiros de todos [...]. Dormem até ao meio-dia; mal saídos do leito, ouvem missa, que para eles reza um padre mercenário. Mal acabado o almoço, logo os chamam para o jantar. Depois, são os dados, o xadrez, os torneios, os adivinhos, os bobos, as amantes, os divertimentos, as chalaças [...]. E, deste modo, sem receio do tédio da vida, passam as horas, os dias, os me­ses, os anos, os séculos.


Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura (1511)

Friday

Antropocentrismo

 Albretch Dürer
Auto-Retrato (1500)
Até finais do século XV, o Homem considerava a vida espiritual e os problemas religiosos como o centro de todos os seus interesses. Contudo, nos últimos tempos da Idade Média surgiu uma nova mentalidade e um novo ideal de vida. Primeiramente em Itália e de­pois nos outros países da Europa, os intelectuais começaram a ma­nifestar uma atitude nova face ao mundo. Então, o Homem colo­cou-se como centro do mundo, isto é, começou a reflectir sobre si e os seus problemas. A esta visão mais ampla do Homem e do seu lugar no mundo damos o nome de antropocentrismo. Esta nova crença nas capacidades do Homem e nas suas reali­zações levou, nos séculos XV e XVI, a uma profunda mudança nas letras, artes, ciências e em todas as formas de pensamento.

Síntese Esquemática

Leonardo da Vinci, A Batalha de Anghiari (detalhe), 1503-05




UMA SOCIEDADE IDEAL

A Ilha da Utopia



- Caro More, na Utopia a administração difunde os seus benefícios por todas as classes de cidadãos. O mérito é ali recompensado. A riqueza nacional encontra­-se tão igualmente repartida que cada indivíduo goza com abundância de todos os confortos da vida. [...] Se tivésseis estado na Utopia, como eu, que ali passei cinco anos da minha vida, [...] veríeis que em nenhuma outra parte existe sociedade tão perfeitamente organizada.

Thomas More, Utopia (1516)



[Thomas More, dirigindo-se ao rei:] - Acabai com o crime e com a miséria na Inglaterra. […] Ponde freio ao avaro egoísmo dos ricos [...]. Que para vós deixe de haver ociosos! Dai à agricultura grande desenvolvimento, criai manu­facturas de lã e outros ramos de indústria [...]. Se não dais remédio aos males que vos aponto, não me elogieis a vossa justiça: não passa de uma mentira feroz e estúpida. Abandonais milhares de jovens aos péssimos efeitos de uma educação viciosa e imoral. [...] Que fazeis deles então? Ladrões, para terdes o prazer de os enforcar depois.

Thomas More, Utopia (1516)

Uma Nova Era


No século XV, a base dos conhecimentos relativos ao Univer­so, à Natureza e ao próprio Homem eram ainda as obras da An­tiguidade greco-romana, principalmente do filósofo Aristóte­les, do geógrafo Ptolomeu e do médico Galeno. No entanto, a autoridade dos sábios greco-romanos e a ad­miração pela Antiguidade não impediram o aparecimento de uma atitude crítica quanto ao saber herdado. Não se tratava de rejeitar os conhecimentos recebidos da Antiguidade, mas de os sujeitar a uma reflexão crítica.
Desenvolveu-se a ideia de que todo o conhecimento tinha que ser confirmado pela experiência e pela razão. Para Leonardo da Vinci, por exemplo, o saber devia resultar da observação da Natureza e só se tornava verdadeiramente vá­lido depois de ser interpretado racionalmente.
Em todo este processo de crítica ao saber tradicional e de procura de um conhecimento alicerçado na experiência, de­sempenharam um importante papel os portugueses, através das viagens de descobrimento. Geógrafos como Duarte Pacheco Pereira e D. João de Castro, matemáticos como Pedro Nunes e botânicos como Garcia de Orta deram um contributo decisivo para o avanço do conhecimento.
Os Humanistas
Ghirlandaio, Os Filósofos
Os humanistas, eram, em termos gerais, estudiosos da cultura clássica antiga. Alguns estavam ligados à Igreja, outros eram artistas ou historiadores, independentes ou protegidos por mecenas. Acabaram por situar o homem como senhor de seu próprio destino, dotado de "livre arbítrio" (capacidade de decisão sobre a própria vida) e elegeram-no como a razão de todo conhecimento, estabelecendo, para ele, um papel de destaque no processo universal e histórico. Passa a interessar-se mais pelo saber , convivendo com a palavra escrita. Adquire novas ideias e outras culturas como a grega e a latina mas, sobretudo , percebe-se capaz , importante e criador . Afasta-se do teocentrismo, assumindo , lentamente , um comportamento baseado no antropocentrismo . De uma postura religiosa e mística, o homem passa para uma posição racionalista, crítica e individualista que lenta e gradualmente, vai minando a estrutura e o espírito medievais .
O Humanismo funcionará como um período de transição entre estas duas atitudes .

O Nascimento do Mundo Moderno

O Nascimento de Vénus
Sandro Botticelli
Concebendo o homem como centro do Universo e defendendo a sua valori­zação e dignificação, o movimento de renovação cultural dos séculos XV e XVI apelou para novos valores: o individua­lismo, o espírito crítico, a tolerância e a curiosidade científica. Embora de forma lenta e inicialmente muito localizada, uma nova mentalidade se impôs nos meios culturais europeus - a mentali­dade renascentista.